Esquemas Geométricos para a Meditação

Por Georg Feuerstein

“Um yantra é um esboço dos níveis e energias do universo – personalizado na forma de uma determinada divindade (devatā) – e logo, do corpo humano (que é a réplica microcósmica do macrocosmo). O yantra pode ser desenhado em papel, madeira, tecido ou qualquer outro material, ou até na areia, se não houver outra alternativa. Conhecem-se também modelos tridimensionais feitos de argila ou metal. 

O yantra tem uma função semelhante a de uma mandala (“círculo”) usada no Tantrismo tibetano. A diferença é que a mandala tende a ser mais figurativa (isto é, inclui desenhos de seres e objetos ) e se baseia num arranjo circular dos elementos constituintes. O típico yantra consiste numa orla quadrada que envolve círculos, pétalas de lótus, triângulos, e no centro, o “ponto seminal” (bindu). 

Cada componente tem um simbolismo de variável complexidade. Assim, o triângulo que aponta para cima significa Śiva, o pólo masculino da realidade, ao passo que o triângulo que aponta para baixo significa Śaktī, o pólo feminino. O ponto central é a matriz criativa do universo, o portal que se abre para a própria Realidade Transcendente.

Nos estágios mais elevados da prática tântrica, o yantra deve ser completamente interiorizado, ou seja, o yogin deve ser capaz de construir mentalmente o seu complexo desenho geométrico por meio da visualização. 

O yantra pode ser criado do ponto interno para fora – segundo o processo da evolução macrocósmica – ou da circunferência exterior para o centro – de acordo com o processo microcósmico de involução meditativa. Depois de construir interiormente o yantra em todos os seus detalhes, o yogin passa a decompô-lo novamente. 

Como a consciência dele identifica-se à estrutura do yantra, essa decomposição implica necessariamente a extinção dele enquanto sujeito da experiência. Em outras palavras, quando o yogin obtém êxito nessa prática avançada, ele transcende a sua mente condicionada e é lançado no puro Ser-Consciência-Felicidade, onde não existe distinção entre sujeito e objeto. 

O Tantrismo emprega um grande número de yantras. O capítulo 20 do Mantra-Mahodadhi (“Grande Oceano dos Mantras”) descreve vinte e nove yantras. O mais famoso de todos é, sem dúvida, o shrī-yantra, reproduzido `a seguir:

O nome shrī refere-se a Lakshmī, deusa da boa fortuna. Esse yantra é composto de nove triângulos justapostos que se dispõem de tal modo que, juntos, produzem um total de quarenta e três triângulos menores. Dos nove triângulos principais, quatro apontam para cima e representam a energia cósmica masculina (Śiva); e cinco apontam para baixo e representam o poder feminino (Śaktī). 

Esses triângulos são rodeados por um lótus de oito pétalas que simboliza o deus Viśṇu, o qual se identifica à tendência ascendente que preenche todo o universo. O lótus seguinte, de dezesseis pétalas, representa a obtenção do objeto desejado – em particular, para os yogins, o poder sobre a mente e os sentidos. Ao redor desse lótus temos quatro linhas concêntricas que se ligam simbolicamente aos dois lótus. A orla é feita de três linhas ;é chamada de “cidade da terra” (bhū-pura) e representa o lugar consagrado, que pode ser todo o universo ou, por analogia, o corpo humano. 

Alguns yantras rituais também são empregados para fins terapêuticos. Além disso, para a obtenção de curas mágicas, podem-se criar yantras específicos para uma doença ou pessoa, que são usados como amuletos. 

Em todos os casos, a eficácia do yantra depende da qualidade da concentração e da visualização do adepto, bem como do seu domínio sobre as energias sutis.”

Abaixo dos 10 yantras que representam as “Grandes Sabedorias” Mahāvidyās 

Imagens: Harish Johari | Tools For Tantra 

Kālī | É a forma primária da Deusa. É representada como uma figura escura e imprevisível. Opera por meio do tempo (kālā), que destrói todos os seres e coisas. Porém, para seus devotos, é uma mãe amorosa que nunca deixa de protegê-los e cuidar deles. 

Tārā | Que é o aspecto salvador da Deusa. Sua função é a de conduzir o devoto em segurança até a “outra margem” do oceano, a da existência condicionada. Não obstante, à semelhança de Kālī, Tārā também é representada muitas vezes como divindade terrível que dança sobre um cadáver e segura uma cabeça cortada numa de suas quatro mãos – um lembrete de que a graça exige o sacrifício do devoto.

Tripurā Sundarī | Que representa a beleza essencial da Deusa. É chamada de Tripurā (três cidades) porque domina os três estados de consciência – a vigília, o sonho e o sono profundo. 

Bhuvaneśvarī | Que como indica seu nome, é a soberana (īshvarī) do mundo (bhuvana). Se Kālī representa o tempo infinito, Bhuvaneśvarī representa o espaço e a criatividade infinitos. 

Bhairavī | Que é o aspecto feroz e aterrorizante da Deusa, a qual exige a transformação do devoto. Costuma ser representada como uma mulher ensandecida, com os seios nus e manchados de sangue. Não obstante, sua ira é divina e é sempre construtiva. Seu poder libertador é indicado pelo fato de que duas de suas mãos fazem o gesto da transmissão de conhecimento, enquanto as outras duas fazem o gesto da proteção. 

Chinnamastā | É o aspecto da Deusa que estilhaça a mente. É representada com a cabeça (masta) cortada (chinna). Essa imagem medonha deixa claro aos devotos que eles têm de ir além da mente e perceber a Realidade diretamente. 

Dhūmāvatī | Que é o aspecto da Deusa que funciona como uma divina cortina de fumaça sob a forma da velhice e da morte, de onde vem o seu nome “esfumaçada”. Só o devoto fervoroso é capaz de vislumbrar a promessa de imortalidade da Deusa por trás do medo da morte. 

Bagalāmukhi| Que, embora seja de uma beleza sem parar, leva um bordão com o qual esmaga as ilusões e concepções dos seus devotos.

Mātaṅgī | Que, sendo a padroeira das artes e especialmente da música, conduz o devoto à contemplação do som primordial e sem causa. 

Kamalātmikā | Que é a Deusa na plenitude do seu aspecto gracioso. É representada sentada sobre um lótus (kamalā), símbolo da pureza. 

Por Georg Feuerstein, no livro A Tradição do Yoga

Boas meditações, Namaste!

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