O que é antar mouna?

Esse é um artigo do professor Pedro Kupfer, uma das maiores referências de Yoga no Brasil e está disponível no website www.yoga.pro.br. Os estágios por ele mencionados também podem ser encontrados nesse link, assim como uma infinidade de artigos sobre Yoga, Tantra e Vedānta.

O que é antar mouna?

Se o sucesso na meditação dependesse do silêncio exterior, seria uma tarefa impossível. Se o silêncio exterior fosse uma condição indispensável para praticar, teríamos que criar câmaras especiais a prova de som, que pudessem ainda ser transportadas quando fossemos viajar.

Se não tivéssemos esse recurso para nos isolar do mundo, estaríamos travando mais uma batalha perdida, nos debatendo e tentando lutar contra o barulho do trânsito na rua ou o som daquele telefone que esquecemos de desligar antes de sentar para meditar.

Entretanto, já que não podemos conseguir um ambiente com silêncio absoluto, usamos uma técnica para criar silêncio interior.

Esse silêncio interior nos ajuda a eliminar os obstáculos dos ruídos exteriores. Assim, podemos praticar sem precisar nos mudar para o gelo eterno dos Himalaias. Onde, por sinal, o vento e a água que descem dos glaciares fazem um barulho ensurdecedor.

O silêncio interior

Antar mouna significa silêncio interior. É uma das práticas mais importantes do Yoga, pois nos ensina a estabelecer um saudável distanciamento em relação ao diálogo mental.

É uma ótima maneira de começar a meditar, pois, ao invés de ficar lutando com a mente, você apenas a observa. É uma técnica excelente para quem não consegue ainda concentrar-se em objetos de meditação abstratos, como símbolos psíquicos ou visualizações.

Porém, o antar mouna é muito mais do que isso. Ao longo das suas diversas fases começam a surgir lembranças, experiências, sentimentos ou pensamentos reprimidos e esquecidos, mas nem sempre resolvidos. Essas latências subconscientes, chamadas saṁskāras, determinam as nossas atitudes, formas de pensar e agir.

São obstáculos poderosos que barram a evolução e produzem sofrimento: tentar controlá-las equivaleria a tentar controlar uma intoxicação alimentar. Da mesma forma que um alimento inadequado envenena o organismo, os saṁskāras poluem a psiquê.

Toda lembrança, pensamento ou sentimento pode servir para o autoconhecimento ou para alimentar e reforçar ainda mais a ignorância.

A boa notícia é que não precisamos fazer nada em relação aos saṁskāras: quando nos firmamos na testemunha equânime que somos e reconhecemos o espaço que existe entre o observador que somos e aquilo que observamos, eles simplesmente perdem a força.

Como funciona o antar mouna?

antar mouna nos ensina a mitigar o conflito interior causado pelos saṁskāras e a estabelecer uma relação distante com o diálogo incessante da mente. Nos ensina a respeitar a mente e aceitar os seus conteúdos.

Nos ensina a ver-nos como a testemunha imparcial que somos, aceitando as experiências e reações da mente e, posteriormente, aprendendo a dar um comando a elas.

Lembranças, medos, pensamentos e sentimentos ocultos durante anos emergem um a um, se debilitam e desintegram. Em muitos casos aparece o medo. Ele determina muitos pensamentos e ações.

O processo de substituição desses conteúdos aflitivos por seus opostos aparece no Yogasūtra (II:29,30) de Patañjali: “Quando surgirem pensamentos indesejáveis, estes podem ser vencidos convivendo-se com seus opostos”.

“Os pensamentos indesejáveis, assim como os de agressão (…), são frutos da ignorância e sempre acabam em sofrimento infindável. [Por isso é necessário convivermos com seus opostos]”. Este é um processo de purificação psíquica muito efetivo, chamado cittaśuddhi.

A psicoterapia, especialmente a Gestalt, procura fazer a mesma coisa. A psicoterapia diz: “agora que você identificou e desintegrou seus fantasmas, está pronto para ter uma vida mais feliz”.

Já o Yoga diz: “agora você está pronto para ter uma vida mais feliz, e empreender a parte mais emocionante da aventura humana: meditar de verdade.”

Por quê? Porque seja qual for a polaridade dos pensamentos, se desejáveis ou indesejáveis, quando reforcamos a identificação com eles terminamos sempre no sofrimento.

Diz Patañjali a esse respeito: “Tudo provoca dor para o sábio: sejam as latências, as experiências ou suas conseqüências, ou a interação entre os estados da realidade (guṇas). A dor que ainda não surgiu deve ser evitada”. Yogasūtra, II:15-16.

saṁskāra é o conjunto das raízes profundas dos condicionamentos do ser, de caráter kármico e inato, que se estruturam em malhas subconscientes. Perpetua-se através das gerações por herança histórica, cultural ou étnica, afetando a todos os indivíduos.

Estamos condicionados a agir sempre em consonância com o saṁskāra, que funciona como um modelo padrão de comportamento. J. Woodroffe dá o exemplo de uma tira de borracha que, embora possa assumir as mais diversas formas, sempre tenderá a retomar a original.

As vāsanās (lit., perfume) são as latências subconscientes. O cheiro que uma flor deixa em um pano é a vāsanā dessa flor: mesmo depois de retirá-la, o perfume permanece. As vāsanās constituem um colossal obstáculo para o meditante, pois a vida subconsciente é um fluxo constante de impressões latentes que dão corpo aos vrittis.

Estes, por sua vez, determinam as ações do indivíduo (karma) e assim entra-se num triângulo vicioso: os condicionamentos determinam os pensamentos, que determinam as ações, que reforçam os condicionamentos, que determinam os pensamentos, que provocam as ações, e assim por diante:

saṁskāra -> vṛtti -> karma ->
saṁskāra -> vṛtti -> karma ->
saṁskāra -> vṛtti -> karma ->…

Para atingir a cessação da identificação com os conteúdos psíquicos (cittavṛtti nirodhaḥ), como propõe Patañjali, é necessário aniquilar essas tendências através do distanciamento, a não-identificação e a auto-observação.

O alvo do antar mouna é observar o processo que alimenta o pensamento através dos sentidos e a atividade subconsciente (o saṁskāra e as vāsanās, que dão corpo à vida psíquica).

Após haver traçado o perfil dessas latências, a técnica serve para fazer surgir os ‘pensamentos indesejáveis’, os vṛttis que Patañjali menciona.

Em seguida, evocar as lembranças associadas a esses pensamentos e reviver as situações que as provocaram, esgotando-as e indo até o final delas, mantendo o tempo todo o estado da consciência testemunha (sakṣi).

Isso produz uma purificação da consciência (cittaśuddhi) que culmina na inversão dos padrões de comportamento e nos condicionamentos que os originam.

Reprogramar é substituir esses ‘pensamentos indesejáveis’ pelos seus opostos, com ensina Patañjali. Isolar a causa raiz do vṛtti, conhecer, observar, desenterrar, entender, limpar, reorganizar, substituir e, finalmente, esvaziar.

Mudar a perspectiva emocional ou mental, transformando a sua significação. Não há nada definitivo: como diz o sábio, “isto também passará”.

Ou seja, conhecer o saṁskāra, substituir as coisas ruins por outras boas e, posteriormente, eliminar também as boas. Depois disso, está-se preparado para que a meditação dê resultados a curtíssimo prazo.

C. G. Jung disse que “ninguém se ilumina imaginando figuras de luz ou preenchendo a mente com concepções teosóficas, mas sim tornando e escuridão consciente,” levando luz para onde há trevas, iluminando as áreas escuras do ser.

Removidos os obstáculos, a luz se revela. Resumindo, este processo de concentração tem seis passos:

1) observar,
2) acessar,
3) evocar,
4) compreender,
5) desidentificar,
6) meditar.

Na meditação surge a experiência de ānanda, um bem-estar que é reflexo da felicidade que é a própria identidade de todos os seres. Mas quanta felicidade?

“[O yogin] conheceu assim, o Ilimitado como Felicidade, pois da Felicidade todos os seres vivos surgem. Tendo nascido da Felicidade, são por ela sustentados, movem-se [vivem] e absorvem-se na Felicidade”. Taittirīyopaniṣad, III:6.1.

Como meditar?

antar mouna é um processo em seis estágios. Este é o primeiro dos três que disponibilizamos neste website. Recomendamos que você pratique os outros três estágios pessoalmente, com um professor.

Faça cada uma destas práticas por 10 dias pelo menos, antes de passar para a próxima. Pratique o segundo e o terceiro estágios do antar mouna aqui e aqui.

Pedro Kupfer [www.yoga.pro.br]

Grupo de Meditação

Durante 6 semanas vou conduzir os 6 estágios do antar mouna via [zoom.us].

05/11, 12/11, 19/11, 26/11, 03/12 e 10/12 de 2020.

Toda Quinta-feira as 17h45m.

As meditações são gratuitas para alunos regulares do Yoga Online ou podem ser feitas de forma isolada. Se você ainda não é aluno me envie um e-mail ou mensagem para participar: patriciaabreu.yoga@gmail.com

Namaste! Paty 🙂

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