A respiração consciente

Quando falamos em respiração sabemos que respirar é um processo natural que acontece em todos os seres vivos, nós dependemos da respiração para viver. Todos nós respiramos, e ao bem da verdade você nem sequer lembra que respira, isso simplesmente acontece. Nós nascemos com uma inteligência guardada no corpo, que permite que você respire para viver sem ter que fazer algo pra que isso aconteça, você simplesmente respira. O sistema respiratório é um sistema involuntário, ou seja, que não precisa de comando, por isso que quando você se esquece da respiração você continua vivendo, nós nunca deixamos de respirar.

Prāṇāyāma não é essa respiração que acontece involuntariamente, Prāṇāyāma é quando você transforma esse processo involuntário em um processo voluntário e passa a controlar de forma direta a respiração. Quando você se dá conta que pode fazer isso, quando você começa então a manipular a respiração você está praticando prāṇāyāma. Quando falamos em manipulação, estamos nos referindo a tempos, ritmos, formas diferentes de respirar e que são diferentes daquela que acontece normalmente.

Não há nada de errado com o respirar de forma natural, está tudo bem com isso, o que é ruim é quando falta ar, quando se sente um aperto no peito, é ruim quando os pulmões estão enfraquecidos e você sente a respiração curta, é ruim quando você sofre de ansiedade. Não estou falando aqui de problemas respiratórios, mas de conexões mentais, entre respiração e a mente, digo isso pois não sou médica pneumologista, minha intenção é apenas mostrar que existe uma forma diferente de se respirar comparada àquela que você faz e que pode diretamente ajudar a reduzir todos ou quase todos os conflitos na mente diminuindo a ansiedade e o stress. Tudo bem que você ainda não tinha se dado conta que poderíamos treinar os pulmões assim como você faz quando treina os músculos do corpo na academia, mas agora que você já sabe pode mudar isso.

Por que todo o mundo então não faz prāṇāyāma? Seria muito mais fácil, concordo, mas infelizmente as pessoas não fazem pois são preguiçosas, conheço muita gente presa em medicamentos para combater a insônia ao invés de tentar aqueles 15 minutos de prática respiratória diária. Sim as pessoas tem preguiça porque não é fácil, prāṇāyāma exige tapaḥ (esforço sobre si mesmo, força de vontade), e muitas pessoas não tem essa força de vontade e infelizmente ainda estão preocupadas com que os outros estão fazendo virtualmente que se esquecem de si mesmo, e ao invés de tentar ficar livre de qualquer tipo de aflição que possa surgir na mente preferem continuar se lamuriando e perdendo tempo com coisas inúteis.

É fácil? Não! Talvez se fosse seríamos todos 100% buddhas e não somos, mas devemos tentar, e pra tentar e criar o hábito de respirar de forma consciente não existe outra forma a não ser a repetição. Todo dia, no mesmo horário pelo mesmo período de tempo eu me preparo, sento, fecho os olhos e me dou o direito de respirar conscientemente. Não há perdas, qualquer tentativa será válida, e práticas são cumulativas, quanto mais se pratica prāṇāyāma e meditação, mais fácil, profundo e divertido fica.

O controle da respiração pode mudar a forma como você vê a vida e as coisas, pode aliviar a pressão da mente e te dar uma sensação de liberdade. Por que não tentar? Suponhamos que você está de quarentena e entediado, sentindo falta da natureza, e aí? Pergunte a si mesmo: “O que eu posso fazer por mim mesmo em relação a isso?” Você tem um dia todo pela frente, dá pra ler, ver seriado, praticar algum exercício físico, etc… e sim, dá tempo de sentar por 15 minutos só pra respirar conscientemente.

Na respiração consciente Você escolhe quando quer inspirar e quando quer expirar, você escolhe o tempo, a pausa e o ritmo, e assim através dessa combinação entre ritmo, intensidade e tempo você tem benefícios diversos sobre a mente e o pensamento, que vão desde o aquietamento mental até diminuição dos batimentos cardíacos. Respirando conscientemente você pode por exemplo reduzir aquele tédio e falta da natureza que está sentindo trazendo prāṇā, a energia da natureza para o próprio corpo. A palavra prāṇā pode ser traduzida como energia, força vital, é yama é o controle. De forma resumida gosto de traduzir que prāṇāyāma é o controle da respiração para expansão da força vital no corpo. Quanto mais prāṇā, mais vida!

A respiração consciente também é considerada uma ponte que liga o corpo `a mente, ou seja, ela conecta o denso e o sutil e nos permite através dessa conexão ganharmos um certo comando sobre a mente. Esse controle respiratório pode aquietar a mente, ou ao menos diminuir o ritmo e assim evitar a ansiedade.

Então yama que é o controle, além de captar o prāṇā, a energia, trazendo vida ao corpo tem o poder de aliviar a ansiedade através do aquietamento mental , é como se criássemos espaços de silêncio entre os pensamentos e nesses espaços de silêncio conseguimos sentir paz e tranquilidade. Essa tomada de consciência simplesmente nos traz pro momento presente nos permitindo viver o aqui e o agora, e no aqui e agora a plenitude acontece. Posteriormente tendo sentindo os benefícios desse respirar consciente você passa a buscar na maior parte do tempo respirar melhor e conscientemente e viver em Yoga, um estado mental de equanimidade, e é por isso que não basta apenas respirar, não é sobre apenas viver, mas é sobre viver tranquilo e viver em paz. Vamos tentar? Eu proponho que experimente as técnicas respiratórias com entusiasmo e motivação, tenha disciplina e faça diariamente por no mínimo 15 minutos.

Como começar?

Primeiramente entenda que existem 4 fases respiratórias:

1.Pūraka – Inspiração
2.Antara Kūmbhaka – Retenção com os pulmões cheios
3.Rechaka – Expiração
4.Bahya Kūmbhaka – Retenção com os pulmões vazios.

As técnicas respiratórias podem a acontecer em 3 regiões:

1.Adhāma – Respiração baixa ou abdominal
2.Madhyāma – Respiração média ou intercostal
3.Uttāma – Respiração alta ou sub-clavicular

Depois podemos dividir a respiração consciente em dois tipos: respiração passiva e respiração ativa.

Respiração Passiva.

Imita a respiração que acontece de forma natural. É Aquela que você nem se lembra e faz o dia todo. Se você observar um bebê respirando, vai notar que a barriguinha do bebê se expande e se recolhe, de forma ritmada. Se expande quando o bebê inspira e se recolhe quando o bebê expira. Essa é a respiração passiva natural. A respiração passiva consciente é quando repetimos esse movimento natural de expansão na inspiração e recolhimento na expiração. Aqui usamos as três fases para respirar, ou seja, parte baixa, média e alta. Quando inspiramos os pulmões se enchem, empurram o diafragma que por sua vez empurra o abdômen para cima, movimento de expansão e quando expiramos o diafragma relaxa e o abdômen desce. Prāṇāyāma passivos são mais tranquilizantes, acalmam, aquietam, te levam para um estado de relaxamento profundo. E são ótimos pra fazer a noite antes de dormir e evitar a insônia.

Respiração Ativa

Agora quando vou fazer uma prática de āsanas, atividades que exijam mais energia, ou ainda se quero me preparar para uma meditação mais profunda, não apenas aquietar mas também focar a mente, me mantendo 100% presente sem escorregar para o estado de sono, eu mudo para técnicas ativas, que ao contrário das passivas são feitas da seguinte maneira: um recolhimento do o abdômen na inspiração, levando o umbigo para trás e para cima, sugando o abdômen para dentro e para o alto e usando mais da respiração média, abrindo e expandindo a caixa torácica, e na expiração a caixa torácica se recolhe e o abdômen relaxa, voltando a posição neutra.

Assim você pode escolher qual a técnica básica quer praticar, se passiva ou ativa e depois colocar um ritmo. Eu recomendo iniciar em 4 tempos, ou seja, você leva 4 tempos (pode contar mentalmente) inspirando até encher por completo os pulmões e 4 tempos expirando. Depois de alguns meses quando já tiver conquistado 4 tempos você pode começar a aumentar os tempos, fazendo isso mais lentamente. Quando Inspiração e Expiração tiverem sido dominadas você acrescenta a retenção com os pulmões cheios e posteriormente a retenção com os pulmões vazios. Ao final ficaria assim: Inspira 1 2 3 4, Retém 1 2 3 4, Expira 1 2 3 4, Retém vazio, 1, 2, 3 4. E assim você continua pelo mínimo de 30 ciclos completos ou 10 a 15 minutos diários. Depois de alguns meses quando tiver dominado essas instruções procure por outros prāṇāyāmas, como Ujjāyī prāṇāyāma, Bhastrikā prāṇāyāma ou Nadi Shodhana para continuar evoluindo na prática e sentindo dia a dia os benefícios dessas técnicas tão poderosas.

A respiração consciente promove o aumento da capacidade pulmonar, trás resistência e dá tônus geral do organismo, promove uma desintoxicação e oxigenação celular, rejuvenescimento e tonificação. Desde o ponto de vista psicológico, a respiração consciente ainda favorece o estado de atenção plena, promove paz e a clareza mental. No aspecto psíquico, manifesta-se numa atitude aberta em relação ao mundo, expansão total de si, concentração, entrega e felicidade.

Sempre que fizer um prāṇāyāma, experimente ao final quando terminar o exercício permanecer de olhos fechados, se observe, contemple o silêncio na mente. Sinta o momento presente. É isso.

Boas práticas,

Namaste

Patricia de Abreu

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