Abhiniveśa, o medo da morte.

É fato que todos nós já sentimos alguma vez o medo da morte. Apegados a vida, as pessoas e as coisas materiais sentimos medo de morrer ou de perder alguém que amamos. abhiniveśa, é esse medo, um dos cinco kleśas mencionados por Patañjali no Yoga Sūtras.

Kleśas são as cinco formas de sofrimento, sofrimento este que nos prende a roda de saṁsāra nos impedindo de alcançar o objetivo do Yoga, mokṣa, que é o reconhecimento do Ser livre e ilimitado que somos.

Tá vamos por partes:

Saṁsāra é a roda nascimentos e renascimentos. Segundo Swami Dayananda “Saṁsāra define a ideia de ir atrás de uma experiência, e mais uma, e mais uma, e mais uma, e mais uma, e mais uma, e mais uma… Buscar experiências nesta vida, buscar experiências depois da morte, buscar experiências noutras dimensões, onde for. Buscar experiências.”

O professor Pedro Kupfer complementa: “Sair do saṃsāra é parar de buscar experiências, ou parar de buscar a felicidade nelas. É também parar de ser afetado por memórias do passado daquelas que nos imobilizam, como complexos, culpas e outros.”
Assim que nascemos ganhamos uma benção chamada livre arbítrio e livres passamos então a fazer escolhas. Buscamos seguir o dharma e escolher sempre a melhor ação para que nos beneficie mas para que também não machuque o próximo não causando nenhum tipo de dor e sempre buscando o melhor resultado possível. E assim vivemos, escolhendo e fazendo ações.

Para cada ação que fazemos recebemos um resultado. A professora Gloria Arieira explica:

“É dito nos Vedas que as ações produzem dois tipos de resultados não visíveis ou de efeito retardado: pūṇya, o resultado de boas ações, e pāpa, o resultado de más ações, designados, às vezes, como mérito e demérito, respectivamente.

Uma vez que o ser humano tem o livre-arbítrio, e ele mesmo se considera como aquele que pratica a ação, foi-lhe dado o direito de escolha e, por consegüinte, a respectiva responsabilidade.

Dessa forma, mérito e demérito são armazenados em uma “conta-corrente” invisível em conformidade com as ações praticadas.
Após a morte, os resultados de nossas ações, anteriormente não visíveis, manifestam-se no nascimento seguinte, quando se é submetido a agradáveis experiências que consomem os méritos acumulados, assim como às desagradáveis, que exaurem os deméritos.

Então, fica claro que se está preso à armadilha de um ciclo sem fim de nascimentos e renascimentos – a roda do saṁsāra, mas, reconhecendo-me como sujeito, que é não-objectificável, sem forma, e ilimitada Consciência, vendo que somente Eu, Consciência, existo, e que toda a criação não está de mim separada, visualizo Unidade a despeito da aparente dualidade. Dessa forma, pelo Conhecimento atinge-se a Liberação do ciclo do Saṁsāra.”

Gloria Arieira

Tá, então a gente já sabe que tem um problema, que é a roda de Saṁsāra, mas também já sabemos que existe uma solução, que é o conhecimento do eu. Uma solução que aparentemente parece simples, mas ao bem da verdade, é que no dia a dia sentimos uma grande dificuldade, praticamos, estudamos e ainda assim sentimos medo, ansiedade, agitação… Como lidar com tudo isso? Já dizia Swamijī; “Você é o problema. Você é a solução.”

Os kleśas são como impedimentos ao crescimento espiritual, como barreiras que nos impedem de enxergar o que já está ali para ser visto. As prática de Yoga, meditação, e exercícios respiratórios podem ajudar a preparar a mente para receber o conhecimento. Essas técnicas podem nos ajudar a superar abhiniveśa e trazer o conhecimento sobre quem somos.

Quais são os 5 kleśas?

Avidyāsmitārāgadveṣābhiniveśāḥ kleśāḥ ||

“Os [cinco] sofrimentos (kleśas) são: ignorância (avidyā), falso conceito do eu (asmitā), gosto (rāga), aversão (dveṣa) e medo da morte (abhiniveśa).

Yoga Sūtra 2.3
tradução de Gloria Arieira

O primeiro kleśa é a causa de todos os outros. A ignorância existencial, chamada avidya é a falta de compreensão sobre si mesmo, sobre o natureza do Ser. Vivemos em Maya, na ilusão, na dualidades e não conseguimos distinguir o que é permanente e o que é transitório, trazendo à tona todas as outras aflições, os outros kleśa. Ignorantes e sem discernimento sobre quem realmente somos sentimos abhiniveśa, o medo da morte, medo que vem atingindo a grande massa de acordo com a situação atual que o mundo está vivendo. Estamos todos com medo não é mesmo?

Abhiniveśa

Svarasavāhī viduṣo ’ pi tathārūḍho ’ bhiniveśaḥ ||

Abhiniveśa, apego a vida, é um impulso pelo instinto natural, igualmente forte também para a pessoa de conhecimento.

Yoga Sūtra 2.9
tradução de Gloria Arieira

Abhiniveśa pode ser traduzido como medo da morte ou apego a vida. “Nasce da ignorância de si mesmo como eterno. E, devido à identificação com o corpo, surge do medo sobre o que acontecerá depois que o corpo morrer” Gloria Arieira

Abhiniveśa é portanto um obstáculo no caminho à liberação e junto ao medo da morte acabamos por consequência adquirindo uma sequência de medos e ansiedades que não impedem de agir, de viver em paz.

Portanto se nesse momento nos sentindo amedrontados pela visita da morte, vale a pena parar um pouco e observar de onde esse medo surge, e como lidar com ele. A única certeza que temos ao nascer é que um dia morreremos, então por que se preocupar?

O professor Pedro Kupfer explica: “ter um corpo é uma imensa bênção, mas O corpo não é Ātma, o Ser. O corpo recebe uma série de nomes em sânscrito, como deha, śarīra e outros; esses nomes não são muito abonadores: descrevem a fragilidade da condição encarnada. Śarīra, por exemplo, significa “aquilo que está facilmente sujeito à desintegração”. Estes corpos foram dados para nós, para que os usemos por um determinado tempo.”

Eu preciso, portanto, reconhecer que Eu não sou o corpo embora viva nele. Eu preciso entender que estou no corpo, e uso desse corpo como um templo sagrado para todas as experiências que vivo nessa vida. Fazendo ações, buscando o dharma, lembrando que eu recebi essa dádiva que é viver em um corpo humano para dar-me conta de quem eu realmente sou. Essa manifestação perfeita que eu sou tem um propósito e eu vivo o quanto for possível e necessário para que o despertar aconteça. E se não for nessa vida, que eu possa morrer seguindo o dharma e renascer pronto pra continuar nessa jornada, uma jornada que nada mais é que na direção de Deus, de compreender Iśvara, a ordem perfeita do universo.

“Quando não há mais ignorância em relação à vida e à morte, a confusão desaparece. Ninguém, enquanto manifestação, escapa da influência da morte física. Isso é um fato. Mas também é fato que Ātma não é esse tipo de manifestação. Ātma está em todas as manifestações, mas não é nenhuma delas. Quando a confusão desaparece, o tempo e o espaço, bem como todos os eventos que neles têm lugar, revelam-se como objetos para a nossa apreciação. A morte morre quando confrontada com o conhecimento.” Pedro Kupfer.

Assim só o conhecimento liberta. Que possamos manter a disciplina de práticas, meditações e estudos que afastam o medo e todas as formas de ansiedade que possam surgir na mente junto com o medo.

dhyānaheyāstadvṛttayaḥ ||

As expressões deles (dos kleśas) devem ser abandonadas através da meditação.

Yoga Sūtra 2.11
tradução de Gloria Arieira

A professora Gloria Arieira explica “Os kleśas não desaparecem por si só. Eles devem ser abandonamos deliberadamente através de um método eficaz. A meditação é um processo mental que inclui o questionamento deliberado e a contemplação. Nesse processo, o yogin consegue perceber todo o movimento sutil de sua mente antes que tome forma e se evidencie.”

Assim guiados pela meditação tentamos manter nossa mente equânime e livre do medo. “É necessário um desejo e um esforço deliberado para resolver o problema que nasce da ignorância relativa do Eu”, complementa Gloria Arieira.

Havendo preparado a mente e compreendido que a morte é só para o corpo e nunca atinge o Ser, não precisamos mais sentir medo dela. Nos entregamos a ordem do Universo e deixamos as coisas fluírem. Está tudo perfeitamente bem como está, é assim que tem que ser. De forma inteligente eu mantenho a calma e auxílio às pessoas que estão ao meu lado. Todos somos um, que tenhamos fé e possamos confiar. Já somos livres, não há o que temer.

Agora é hora de ter sharada, de dar um voto de confiança ao ensinamento de maneira que ele possa fazer sentido, de maneira que a mente possa compreender, de maneira que o coração possa relaxar em relação ao conhecimento. Tat tvam asi, o Ser pleno, o Ser ilimitado é você.

Para terminar esse artigo gostaria de sugerir a leitura da Kaṭhopaniṣad, um texto onde o menino Nachiketas, um buscador, faz a Yama, o deus da morte, um série de perguntas tentando entender o sentido da vida. Um texto sobre a realização espiritual que considero uma boa reflexão para o atual momento. As Upaniṣads constituem uma das fontes mais profusas de sabedoria reveladas à humanidade e podem lhe trazer luz nesse momento. Nachiketas mostra a “vitória sobre a morte”, através do conhecimento. Acesse o link “Kaṭha Upaniṣad” para encontrar todo o texto traduzido pelo professor Pedro Kupfer.

Boa leitura, boas reflexões, fique em paz.
Namaste

Patricia de Abreu

Bibliografia: O Yoga que conduz à plenitude – Os Yoga Sūtras de Patañjali traduzido por Gloria Arieira e artigos do professor Pedro Kupfer no site www.yoga.pro.br

Published by Patricia de Abreu

Patrícia de Abreu é professora de Yoga há 15 anos, e é inteiramente devota ao estudo e a prática dessa tradição milenar. É filiada ao Yoga Alliance E-RYT, ao Yoga Austrália país onde viveu os últimos 6 anos trabalhando com Yoga e à Aliança do Yoga no Brasil. Atualmente ensina Yoga On-line e produz conteúdo digital para o aplicativo de Meditações Insight Timer. Paty como é conhecida ensina Haṭha Yoga tradicional, Aṣṭāṅga e algumas vertentes mais modernas como Power e Yin. Estudante de Vedānta, já esteve na Índia algumas vezes para aprofundar seus estudos em retiro no Swami Dayananda Ashram. Patrícia busca ensinar de forma integral todos as pessoas interessadas no caminho do Yoga e do autoconhecimento.

One thought on “Abhiniveśa, o medo da morte.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: