Sobre a Meditação – Parte 3

A última parte sobre essa sequência de 3 artigos sobre a Meditação, ensina sobre Dhāraṇā, a concentração, e como depois de ter se preparado, podemos enfim chegar ao objetivo final que é meditar.

Concentração – Dhāraṇā

O sexto passo em direção a iluminação segundo os Sutras de Patañjali é Dhāraṇā, que quer dizer concentração. É uma maneira de focar a atenção num caminho, ponto ou local específico e escolhido. Pode ser no corpo ou fora dele. Dhāraṇā é o treinamento de tentar controlar as flutuações da consciência e focalizá-la num determinado ponto. Em dhāraṇā, a pessoa aprende gradualmente a aquietar a mente, a diminuir as flutuações, ou ondulações do pensamento, para, por fim, eliminar todas as ondas ou altos e baixos da consciência, e se encontrar o estado de união, onde conhecido e conhecedor se tornam um. Quando a consciência mantém essa atenção sem alterar ou oscilar a intensidade da conscientização, quando se conquista a equanimidade, então dhāraṇā se torna dhyāna, a meditação.

Técnicas de Concentração

1.Respirção

Respirar é preciso. Os exercícios respiratórios aumentam a vitalidade, melhoram a capacidade pulmonar, regulam o peso, a digestão e o domínio da musculatura involuntária. A respiração consciente promove o autoconhecimento. Aumenta a consciência corporal, torna o corpo irradiante e forte, a pele brilhante e sadia. Mas o verdadeiro propósito é aquietar a mente.

Se você não conhece nenhuma técnica experimente apenas sentar, fechar os olhos e olhar para a sua respiração. Conte mentalmente 4 tempos para inalar, e 4 tempos para exalar. Se concentre em coordenar a entrada e a saída do ar junto com a contagem mental. Se sentir que é confortável aumente para 5 ou 6 tempos. Depois de ter dominado essa técnica acrescente as retenções de ar, com os pulmões cheios e vazios fazendo a respiração quadrada – 4 para inspirar, 4 retendo o ar com os pulmões cheios, 4 exalando e 4 segurando sem ar, pulmões vazios. Faça de 10 a 20 ciclos e depois permaneça em silêncio, deixando que a respiração aconteça de forma natural. Apenas observe.

Os movimentos da respiração

Puraka: inalação – movimento ativa.
Rechaka: exalação – movimento passivo
Antar Kumbhaka: retenção com os pulmões cheios– Tende a esquentar o corpo. É de natureza de retenção.
Bahya Kumbhaka: retenção com os pulmões vazios – Tende a esfriar o corpo. É de natureza de entrega.

A inspiração faz o ar entrar no corpo, nutrindo-o. Na retenção com os pulmões cheios, o ar é assimilado pelo corpo, criando calor. O calor é dissipado pela exalação. Por isso, reter o ar com os pulmões cheios esquenta. Reter o ar com os pulmões vazios, esfria.

Depois de conquistar os movimentos da respiração e se sentir confortável tente alguns prāṇāyāmas como:

Ākaśa prāṇāyāma – o prāṇāyāma do espaço
Nāḍī Shodhana prāṇāyāma – a respiração alternada
Ujjāyī prāṇāyāma – a respiração vitoriosa

Para conhecer essas técnicas de prāṇāyāma entre outros exercícios respiratórios, acesse o link “Os principais pranayamas do Hatha Yoga” escrito por Tales Nunes sobre o tema. Procure seu professor em caso de dúvidas, é importante esclarecer quaisquer dúvidas que possam surgir e evitar algum tipo de equivocação.

Você pode praticar Ākaśa prāṇāyāma guiado por mim no aplicativo Insight Timer.
Procure pelo mural do professor – Patrícia de Abreu. Lá você também vai encontrar outras opções para meditar. A meditação guiada pode ajudá-lo a se concentrar e a guiá-lo no início da sua jornada.

2.Vizualização

Inclui focalizar a visão em objetos internos ou externos.
Ex. Interno – Terceiro Olho
Ex. Externo – Chama de uma vela.

Para treinar sua concentração através de um objeto externo selecionei a meditação no Sri Yantra da professora Márcia De Luca. Você pode imprimir a imagem e colá-la na parede a sua frente.

SHREE YANTRA

“Enquanto você olha para o yantra, focalize o seu centro. Este ponto central é chamado de bindu e representa a unidade que está por trás de toda a diversidade do mundo físico.

Agora focalize o triângulo que envolve o bindu. O triângulo que aponta para baixo representa o poder criativo feminino, enquanto que o triângulo que aponta para cima representa a energia masculina.

Expanda seu olhar até incluir os círculos externos aos triângulos. Eles representam os ciclos dos ritmos cósmicos. A imagem do círculo incorpora a noção de que o tempo não tem início nem fim. A região mais longínqua do espaço e o núcleo mais interno de um átomo pulsam ambos com a mesma energia rítmica da criação. Esse ritmo está dentro e fora de você.

Perceba as pétalas de lótus do lado externo do círculo. Observe que elas apontam para fora, como que se abrindo. Elas ilustram o desdobrar de nosso entendimento. O lótus também representa o coração, o assento do Eu. Quando o coração se abre, o entendimento vem.

O quadrado na parte externa do yantra representa o mundo da forma, o mundo material que nossos sentidos nos mostram, a ilusão de separação, de limites e fronteiras bem definidos. Na periferia da figura existem quatro portais em forma de T. Observe que apontam para o interior do yantra, os espaços mais internos da vida. Eles representam nossa passagem terrena do externo e material para o interno e sagrado.

Agora, por alguns instantes olhe para dentro do yantra, permitindo que as formas e desenhos diferentes surjam naturalmente e deixe que seu olhar fique desfocado. Olhe para o centro do yantra. Sem mover os olhos, gradualmente comece a expandir seu campo de visão. Continue a expandi-lo até que esteja recebendo informação de mais de 180º. Observe que toda esta informação estava lá o tempo todo, que você apenas se conscientizou disso agora. Agora, lentamente, reverta o processo voltando a enfocar novamente o centro do yantra.

Lentamente, feche os olhos. Você ainda pode ver o yantra com os olhos da mente. Os desenhos representados por essas formas primordiais expressam as forças fundamentais da natureza. Elas governam o mundo e governam você.”

Márcia De Luca

3. Reflexão

Quem sou eu?

Lembra sobre não se apegar aos pensamentos?

Pensamento é pensamento, emoção é emoção. Eu sou a testemunha que observa. Aquele que está além dos objetos. Muitas vezes nos esquecemos que a nossa verdadeira natureza é divina, sofremos, vivemos identificados com as experiências ligadas ao nosso corpo e a nossa mente. A meditação nos ensina o caminho de volta pra casa, o caminho da não identificação com o corpo, a mente e os objetos, a meditação nos conduz ao reconhecimento da nossa essência, ao verdadeiro conhecimento que está dentro de nós.

Técnica: Meditação de reflexão

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Ātma Vichāra, A Meditação no Ser de Ramana Maharshi

Esta técnica é a que melhor exemplifica o Jñana Yoga, o Yoga do conhecimento verdadeiro. Ātma Vichāra é o questionamento sobre a natureza real da alma. Esta técnica tem como objetivo eliminar as falsas idéias sobre o Eu e o ego, e nos ensinar a separar o espectador do espetáculo, a consciência que vê e o que é visto.

Quem sou eu, que não sou este corpo?
Sou o ser (que é imaterial, imutável e imperecível).
Quem sou eu, que não sou esta mente que pensa?
Sou o ser (que é serenidade e paz).
Quem sou eu, que não sou os cinco sentidos?
Sou o ser (que é silêncio e comunhão).
Quem sou eu, que não sou as emoções?
Sou o ser (que é ponderação e equilíbrio).
Quem sou eu, que não sou sensações?
Sou o ser (que é satisfação).
Quem sou eu, que não sou desejo, necessidade, vontade?
Sou o ser (que é plenitude).
Quem sou eu, que não sou passado, presente e nem futuro?
Sou o ser (que é atemporal, eterno).
Quem sou eu, que não sou ego, personalidade?
Sou o ser (que é tudo).
Quem sou eu, que não sou os papéis que represento?
Sou o ser (que é a verdadeira natureza, a verdadeira identidade).
Quem sou eu, que não sou individualidade?
Sou o ser (que é uno).
Quem sou eu, que não sou orgulho e vaidade?
Sou o ser (que é simplicidade).
Quem sou eu, que não sou insegurança e medo?
Sou o ser (que é luz).

Ramana Maharshi

A meditação profunda desperta experiências que a ciência não consegue descrever. Experiências que estão além da razão e do pensamento, e que se vinculam com o despertar da intuição e com o reconhecimento do ser livre que somos.

4.Observação

Observação dos pensamentos.

Prepare-se de acordo com técnicas fornecidas anteriormente. Então sem julgamentos, sem críticas, sem tentar controlar, editar, modificar algum conteúdo mental, e também com uma atitude de relaxamento, observe o movimento natural dos pensamentos. Você é a testemunha que observa. Se coloque como testemunha, como espectador, apenas assista o filme que passa na sua mente. Você não precisa de soluções, você não precisa criar uma novela, deixe a mente livre. Você precisa apenas ser você mesmo. Observando. A partir da observação, fique atento aos espaços de silêncio que possam surgir entre os pensamentos. Contemple.

5.Japa

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Repetição de um mantra de forma mental ou verbal. Usando um Japamālā (Aprenda a como usar o Japamālā lendo o artigo do professor Pedro Kupfer : “Como usar o Japamālā.” ) escolha um mantra, e o repita, nem muito rápido, nem muito devagar, encontre um ritmo e faça a volta no Japamālā, é simples.

Segundo a professora Gloria Arieira, Japa é a melhor maneira de disciplinar o pensamento.

abhyäsavairägyäbhyäà tannirodhaù || 12 ||
A cessação da identificação com os vrttis, consegue-se através da repetição e do desapego.

Yoga Sutra.

abhyäsa = repetição, disciplina, prática
vairägya = desapego
abhyäà = através de
tan = isso
nirodhaù = não identificação

Para que abhyāsa, a repetição dê frutos e funcione nessa tentativa de aquietar a mente, é necessário que seja feito por um longo periodo tempo, (ex. 10 minutos todos os dias), de forma ininterrupta e com profunda e real dedicação. Se escolhemos o Yoga como caminho a se seguir, devemos realmente nos esforçar, entender que as mudanças e o amadurecimento acontecem de forma lenta e gradual. Precisamos nos manter focados em reconhecer nossa natureza real, e não desistir frente aos obstáculos e dificuldades que estarão no caminho. É preciso Tapas, superação. Fazer Japa demanda grande disciplina, força de vontade e principalmente fé. Como Patañjali diz nos Sutras, esse é o caminho para a vida de Yoga.

6.Ajapa

Sincronismo entre respiração e um mantra

É conhecido como o japa que não é japa. É o mantra que fazemos ao respirar. É o próprio som produzido pelo fluxo do ar ao entrar e sair dos pulmões: So Ham. Feche os olhos, inspire e mentalize SO, exale e mentalize HAM.

Essa meditação também pode ser encontrada no Insight Timer.

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Essas são algumas técnicas de acordo com a filosofia do Yoga. Lembrando que existem muitas outras de acordo com outras filosofias e ensinamentos, como meditação budista por exemplo. Não existe técnica melhor ou pior, somos todos diferentes em termos de personalidade e precisamos encontrar a técnica que fala a nossa lingua, ao nosso coração e então nos dedicar a ela.

Dhyāna – A Meditação

Dhyāna é o caminho para descobrir nosso Eu real, nosso Eu maior. É sobre o auto-estudo, sobre observação, reflexão e então o vislumbre da alma.

Começa com a observação do processo físico, depois envolve a observação do estado mental, a seguir une-se a inteligência, da cabeça com o coração para mergulhar numa profunda contemplação. Por meio dessa contemplação, a consciência se funde com o objeto da meditação.

O auge da meditação é o dar-se conta, o entendimento que acontece. A consciência deixa a exploração da mente e se identifica com o núcleo central da própria existência, o Eu. Neste ponto a consciência se torna pura. Quando uma pessoa alcança iluminação significa que chegou ao entendimento do Ser, e agora vive a sua existência do ponto de vista do Ser e não do ego.

Medite

“Se alguém entende realmente o corpo, entenderá também a mente. Se entender realmente a mente, também entenderá a alma. Porque a realidade que está por trás é só uma.”

Adi Shankaracharya.

A meditação nos ajuda a remover o conflito interno entre o que somos e o que queremos. Nos ensina que Ser é melhor que Ter. Meditar traz amadurecimento e o entendimento de que não podemos viver apegados aos pensamentos. Meditar nos mostra quem realmente somos, e nos conecta com nossa essência pura e verdadeira. Na meditação ainda aprendemos o papel do ego na nossa vida, entendemos o valores básicos e vivemos de acordo com o dharma. A meditação ainda remove a ignorância e conduz a mente ao caminho do samādhi, do estado de paz e equanimidade.

Boas práticas.

Namaste

Patricia de Abreu
@patyyoga

Fotografia: Nathalia Pellicer
@nathaliapellicer

Published by Patricia de Abreu

Patrícia de Abreu é professora de Yoga há 15 anos, e é inteiramente devota ao estudo e a prática dessa tradição milenar. É filiada ao Yoga Alliance E-RYT, ao Yoga Austrália país onde viveu os últimos 6 anos trabalhando com Yoga e à Aliança do Yoga no Brasil. Atualmente ensina Yoga On-line e produz conteúdo digital para o aplicativo de Meditações Insight Timer. Paty como é conhecida ensina Haṭha Yoga tradicional, Aṣṭāṅga e algumas vertentes mais modernas como Power e Yin. Estudante de Vedānta, já esteve na Índia algumas vezes para aprofundar seus estudos em retiro no Swami Dayananda Ashram. Patrícia busca ensinar de forma integral todos as pessoas interessadas no caminho do Yoga e do autoconhecimento.

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