Sobre a Meditação – Parte 1

A meditação é uma formidável ferramenta para observar a si próprio e conhecer sua verdadeira dimensão, nos ajuda no dar-se conta que quem realmente somos, da nossa verdadeira natureza. Nos ensina a arte de viver consciente e harmoniosamente.

Meditar é se conectar, é praticar a auto-observação. Quando olhamos para dentro de nós mesmos praticamos a observação dos nossos pensamentos e das nossas emoções. Nos conectamos com o aqui e agora e vamos nos conhecendo cada vez mais. Isso é a essência sobre o que é meditar.

Pode-se também dizer que é estar presente. A presença é a base da meditação, é ela a responsável por ajudar a aliviar a ansiedade, auxiliar no autoconhecimento, reduzir o estresse e até melhorar a qualidade do nosso sono.

Segundo Patañjali nos Yoga Sutras, Ac. -200 a meditação é um dos 8 passos, ou degraus que conduz o praticante de Yoga a iluminação. Resumindo; Os oito passos do Aṣṭāṅga Yoga de Patañjali

A palavra sânscrita aṣṭāṅga vem das raizes, aṣṭau – oito, e aṅga – partes. Assim traduz-se Aṣṭāṅga Yoga como o Yoga em oito partes. Os fundamentos filosóficos do Aṣṭāṅga Yoga estão em um livro chamado Yoga Sutras e é considerado o texto mais importante do Yoga clássico. Nele Patañjali sistematiza todo o conhecimento e sabedoria do Yoga. Esses sutras são um estudo da psique humana e mostra como através da prática de Yoga aprendemos sobre nós mesmos, conseguimos o controle da mente e das emoções. Supera-se então todos os obstáculos no caminho da evolução espiritual a fim de se alcançar o objetivo final do Yoga, a libertação. Patañjali define Yoga como “yogaścitta-vṛtti-nirodhaḥ”, ou seja, Yoga é a cessação da [identificação com] as modificações da mente. Para então alcançar esse objetivo ele descreve um caminho em oito passos.

1- यम: yama – proscrições éticas
1. não violência ::: ahiṁsā
2. veracidade ::: satya
3. não roubar ::: asteya
4. não desvirtuamento da sexualidade ::: brahmacharya
5. desapego ::: āparigrahā

2- नियम: niyama – prescrições éticas
1. purificação ::: śaucha
2. contentamento ::: santoṣa
3. esforço sobre si próprio ::: tapaḥ
4. auto-estudo ::: svādhyāya
5. entrega a Īśvara ::: Īśvara praṇidhānā

3- आसन āsana – posições físicas. O āsana deve ser estável e confortável e seu objetivo é purificar, fortalecer e relaxar o corpo para as próximas etapas.

4- प्राणायाम prāṇāyāma – expansão da energia vital no corpo. Respiração e mente estão intimamente conectados, a partir desses exercícios o praticante começa o despertar de sua consciência.

5- प्रत्याहार, pratyāhāra – introspecção. É a abrstração dos sentidos, é quando consegue-se parar de prestar atenção nos estímulos externos e voltar a atenção para o interior.

6- धारणा dhāraṇā – concentração. É conseguir manter a mente concentrada em um só ponto.

7- ध्यान dhyāna – Meditação. Quando a mente consegue permanecer focada em um só ponto por um período de tempo. Não há envolvimento do sujeito e do objeto, apenas observação.

8 – समाधि samādhi – Contemplação. Atingir o samādhi, é atingir o Yoga, é atingir a iluminação.

Estas oito partes, ou oito passos, são como ramos de uma árvores, naturalmente são ligados entre si e dependem um do outro. Essa é a base da filosofia tradicional do Yoga.
Meditar então é aprender a arte da Consciência plena.

A meditação não pode ser expressa em palavras, deve-se encontrá-la por si mesmo para saber o que realmente a meditação é. Meditação não significa apenas ficar sentado silenciosamente por cinco ou dez minutos. Tentar esvaziar a mente é um mito que devemos desfazer. Ela requer esforço consciente. A mente tem de ser posta calma e quieta. Ao mesmo tempo, deve permanecer vigilante para que nenhuma distração penetre, na forma de pensamentos ou desejos. Quando conseguimos tornar a mente calma e silenciosa, sentimos que uma nova criação desperta em nosso interior.

O objetivo principal da meditação é o autoconhecimento, a conexão do Eu, é estar e viver presente.

Mindfulness

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Por volta de 1977 a ciência resolve começar a estudar a meditação e nomeia este ato de estar presente de Mindfulness, onde sem dogmas e não conectado a nenhuma religião ou cultura a meditação poderia ser praticada por todos no ocidente. Essa “nova” técnica ajudou na popularização da meditação e pela primeira vez a ciência passa a comprovar os benefícios de se meditar. A partir desse momento a meditação além de nos conduzir ao entendimento do Eu também passa a ser usada para aliviar o stress, reduzir a ansiedade e ajudar em inúmeros outros “problemas” que a sociedade moderna enfrenta.

Assim como Patañjali mencionava nos Yoga Sutras, Mindfulness é estar presente. É a observação e a não identificação dos pensamentos. É observar, aceitar e agir ao invés de reagir. Mindfulness, ou estar pleno, me ajuda a olhar para um pensamento e entender que ele é só um pensamento. Eu me coloco no papel de observador, em Sânscrito esse observador é chamado de Sakshi, a consciência testemunha. Mindfulness é portanto apenas um novo nome dado para essa observação consciente da mente. É como se a mente fosse o palco e eu o espectador, eu olho para o palco, eu assisto a peça mas não me envolvo com ela. É criar uma distância entre quem está observando e o que está sendo observado.

A base de Mindfulness é usar a respiração para nos trazer pro presente e estando aqui agora você é capaz de observar o pensamento. Você pode tentar apenas fechando os olhos e observando o ar entrando e saindo, sem modificar a respiração, apenas observe.

Os benefícios

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1.Desenvolvimento do cérebro
Praticar meditação por 8 semanas desenvolveu 3 áreas do cérebro; o Hipocampo esquerdo (capacidade de aprender); o córtex cingulado (controle emocional e recuperação da memória) e a Junção temporoparietal ( percepção e processamento de informação e empatia e compaixão). E reduziu a amígdala, responsável pelo estresse, medo e ansiedade.

2.Melhora as emoções – após 6 meses praticando meditação percebeu-se uma redução do estresse, da ansiedade e da depressão. A meditação também agiu sobre o sistema nervoso, desligando o lado simpático a ativando o parassimpático.

Sistema Nervoso Parassimpático – Descansar e digerir
Sistema Nervoso Simpático – Brigar e fugir

Por consequência reduz doenças como inflamações, riscos cardíacos e AVC. Previne o envelhecimento e ajuda a superar hábitos ruins. Meditar ainda impulsiona a saúde e o bem-estar. Reduz desejos e aumenta a força de vontade. Aumenta a concentração e a performance devido ao aumento do Foco.

3.Torna você muito mais feliz. Resumindo a meditação aumenta a compaixão, o autocontrole e a felicidade pois aumenta 3x mais as ondas Gama no Cérebro, responsáveis por estado profundo de aquietamento.

De forma resumida entenda as ondas mentais:

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Beta: Acordado, ativo e alerta. 〰〰〰〰〰〰〰〰〰〰〰〰〰〰〰〰〰〰〰〰〰
São os estados mentais de atenção que caracterizam o estado da vigília. As ondas cerebrais Beta são imprescindíveis em procedimentos criativos, já que deixam a pessoa desperta, alerta e com a mente concentrada e pronta para executar trabalhos que necessitam de atenção redobrada.

Alfa: Meditando, concentrado e relaxado. 〰〰___〰〰___〰〰___〰〰__
É nesse nível mais profundo que as áreas da inteligência, memória, inspiração, percepção sensorial e intuição atuam. Também acontecem durante a oração.

Theta: Sonhos lúcidos e a criatividade. Depois da meditação. 〰____〰___〰____〰___
Acontece no estado que antecede o sono profundo. É nesse estado que conseguimos uma conexão profunda com o nosso eu interior.

Delta: Regeneração, cura e sono profundo. 〰_________〰_____________〰_________
Estados mentais de consciência expandida. Ondas Delta disponibilizam o hormônio do crescimento humano, chamado de HGH, que é bastante positivo para a reestruturação celular.

Gamma – Estado profundo de aquietamento. ______________________________________

Entendendo A mente humana

Meditar é observar a própria mente, para entender não só quais são os mecanismos da nossa mente individual, mas como funciona a mente humana. Como conhecer em intimidade a nossa mente e ir além daquilo que eu acho que me limita.

Em Sânscrito Antaḥkāraṇa é o que conhecemos no ocidente apenas como mente, mas segundo a tradição do Yoga a mente é dividida em diferentes partes; sendo: a mente (manas), o intelecto (buddhi), o ego (ahaṅkāra) e a memória (citta).

Quando meditamos estamos aptos a levar nossa consciência para esta diferentes partes da mente e entendemos a nos distanciar e a separar o que é mente, intelecto, ego, memória e o que Eu realmente sou. Eu me torno consciente do Eu.

A meditação também nos ajuda na reprogramação da mente e na mudança de hábito, começamos a substituir alguns condicionamentos latentes que nos impedem de evoluir por novos e bons condicionamentos, entendendo que a Mente é capaz de co-criar a realidade eu começo o meu processo de cura.

Como assim?

Segundo a psicologia a mente é dividida em Consciente e Subconsciente.

Consciente

10% da nossa mente corresponde ao Consciente. Nossa consciência é responsável pelo raciocínio, pelo planejamento, análises, tomada de decisões, organização, contagem e julgamentos. É a mente que está aqui agora, olhando, julgando e criticando. Também é responsável por dizer se é certo ou errado, bom ou mau, e é responsável pela memória de curto prazo.

Subconsciente

90% da nossa mente corresponde ao Subconsciente. Tem um campo imenso de possibilidades. É responsável pelos teus batimentos cardíacos, pela tua respiração, pelo teu sono, pela digestão e todas as funções vitais. Aqui também estão nossos hábitos, crenças, emoções e sentimentos. Conexão Espiritual, intuição, sabedoria, padrões comportamentais e a memória de longo prazo.

Segundo Thurman Fleet até os 6 anos de idade a mente tem a maior parte das ondas Alfa e é quando guardamos tudo. É como se a nossa mente fosse um gravador e tudo que é ouvido, sentido e visto é armazenado. É como um banco de dados. É aqui que os hábitos são gerados. Depois dos 6 anos é como se a “caixa” do inconsciente se fechasse e então o consciente se abre para o período escolar, de aprendizagem, nesse momento é o intelecto que mais trabalha, estado desperto, analisando, julgando, chegando a conclusões sobre todas as informações que recebemos.

Outra parte da mente segundo Carl Jung é o inconsciente coletivo. É nessa parte da mente que estão contidos todos os registros de nosso passado evolucionário e atividades de nossos ancestrais e arquétipos. O inconsciente coletivo também nos conecta com todos os demais seres humanos.

E além ou por trás dessas diferentes partes da mente está o Eu, aquele que estamos buscando através da meditação.

Como entender a diferença entre as duas mentes?

A psicologia ensina um exemplo simples para entender a diferença entre o consciente e o subconsciente. Pense em um jardim. O jardineiro somos nós, o consciente, e o jardim é a nossa mente subconsciente. Durante todo o dia você está plantando sementes na sua mente subconsciente. Nosso consciente é responsável pelo pensamento. Você pensa, cria uma imagem e essa imagem é levada pro nosso subconsciente. A frequência dessas imagens no nosso subconsciente formam nosso padrão de comportamento, nossos hábitos. Precisamos entender que todo pensamento cria uma imagem. Se você já tentou parar de pensar, sabe que é impossível pois a natureza da mente é o pensamento, qualquer esforço nesse sentido irá provocar uma reação mental oposta.

O pensamento é natural. Não existe mente sem pensamento. Aliás, o corpo da mente é o próprio pensamento, ou melhor, a seqüência de pensamentos ou associações livres que surgem, aparentemente, de maneira aleatória. Não há nada de errado em relação a isso. Eu preciso então aceitar que mente é pensamento e começar a escolher o que levar para a mente subconsciente.

Que imagens então você leva pro seu subconsciente?

Quando você planta uma semente algo vai nascer. Pode ser uma linda flor ou uma erva daninha. Mas o jardim não escolhe por você, quem escolhe é você, sua mente consciente pois o Subconsciente não decide.

O Subconsciente não sabe o que é errado, mas de forma consciente podemos começar a reprograma-lo, podemos falar com ele de forma imperativa, colocando uma certa ordem na mente. Uma coisa interessante é que a mente não entende a palavra Não, portanto tudo deve ser feito de forma afirmativa/imperativa. É como fazer o Sankalpa (resolução interior) com afirmações positivas, ex: “Eu tenho saúde perfeita”, “Me relaciono bem com as pessoas”, “Eu me amo”, etc.

Eu passo a repetir afirmações positivas, eu tento substituir pensamentos que não são agradáveis por pensamentos agradáveis, eu “rótulo” os pensamentos lembrando que são só pensamentos e acima de tudo eu entendo que eu não sou o pensamento. Independentemente do que possa surgir na mente consciente eu não me identifico.

O entendimento de que existe espaço entre aquele que observa e o que está sendo observado trás a não identificação com o pensamento e por consequência leva o sofrimento embora, pois eu entendo que pensamento é pensamento, emoção é emoção e eu sou aquela paz que permanece observando, o Eu que está por trás de todos esses movimentos e oscilações da mente.

Pensar é sofrer?

Se você acredita ser o que está pensando você irá sofrer, mas os pensamentos por si só não produzem sofrimento. É um erro pensar que esvaziar a mente é o único caminho para a felicidade, o praticante que normalmente busca parar de pensar acaba sofrendo pois está identificado com os pensamentos e com as emoções que surgem vinculadas a ele.

Segundo o professor Pedro Kupfer, “o sofrimento é causado pela confusão que se estabelece quando, ao pensar, acredito que o conteúdo dos pensamentos seja o Ser. A verdade ;e que os pensamentos acontecem porque o Ser é. Os pensamentos não existem separados do Ser.”

Despertar o observador interno, se colocar como observador e começar a selecionar os tipos de imagens que mandamos para a mente irá devagar construir uma mente meditativa e pronta para alcançar o estado de contemplação.

Lembrando que durante o processo poderá existir sofrimento uma vez que a mente subconsciente irá “soltar” complexos que estão profundamente enraizados e que o praticante desconhecia. É o processo de reprogramação, eu me liberto dessas latências subconscientes , iluminando os complexos, eliminando os medos e dando espaços para os novos hábitos.

Uma vez que esses medos são confrontados, eles são removidos e a felicidade começa a aparecer, a brilhar.

Agora que você já entendeu o que é a meditação, a mente humana e a razão maior para meditar você está pronto para iniciar a jornada de autoconhecimento.

A partir daqui entramos com as técnicas de abstração sensorial e concentração que vão ajudar a aquietar a mente, a focar e a nos preparar para o estado de contemplação.

No proximo artigo continuamos.
Qualquer dúvida entre em contato.

Namaste

Patricia de Abreu
patriciaa.yoga@gmail.com
Instagram.com/patyyoga

Published by Patricia de Abreu

Patrícia de Abreu é professora de Yoga há 15 anos, e é inteiramente devota ao estudo e a prática dessa tradição milenar. É filiada ao Yoga Alliance E-RYT, ao Yoga Austrália país onde viveu os últimos 6 anos trabalhando com Yoga e à Aliança do Yoga no Brasil. Atualmente ensina Yoga On-line e produz conteúdo digital para o aplicativo de Meditações Insight Timer. Paty como é conhecida ensina Haṭha Yoga tradicional, Aṣṭāṅga e algumas vertentes mais modernas como Power e Yin. Estudante de Vedānta, já esteve na Índia algumas vezes para aprofundar seus estudos em retiro no Swami Dayananda Ashram. Patrícia busca ensinar de forma integral todos as pessoas interessadas no caminho do Yoga e do autoconhecimento.

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