MOKSHA E O APEGO AO CORPO

Na atual onda de popularidade que o Yoga está vivendo, constatamos com facilidade que uma grande ênfase é dada à prática dos āsanas, em detrimento do real objetivo, que é mokṣa a liberdade. Āsanas são os exercícios do Yoga: posturas instigantes e desafiadoras que vitalizam, dão flexibilidade e fortalecem todo o corpo, além de movimentarem de forma intensa e variada o fluxo de energia, preparando a estrutura para o despertar da energia potencial. São definidos por Patañjali como “firmes e agradáveis”, sthirasukham.

O Yoga Sūtra, II:47 diz que “a posição é dominada quando se elimina a tensão e se medita no infinito”. Segundo Pedro Kupfer no Dicionário de Yoga, “É através deles que o praticante faz do corpo um instrumento para o crescimento pessoal”. Mas o crescimento muitas vezes é deixado de lado e o cuidado com o corpo acaba se tornando um fim em si mesmo. Pedro complementa ainda: “é preciso ter muita consciência e saber exatamente o que se busca ao fazer āsana, e para que se pratica. Se não for assim, corre-se o risco de que o ego cresça em proporção direta ao aumento da flexibilidade”.

Mas essa consciência parece ter sido esquecida e o que vemos é um apego demasiado ao corpo. Mokṣa então torna-se impossível, já que os valores são deixados de lado. Segundo o Dicionário Houaiss, a palavra apego significa “dedicação constante e excessiva a algo”, nesse caso ao corpo, e se existe um apego demasiado ao corpo um dos yamas do Yoga clássico não está sendo considerado, aparigraha, a não possessividade, que também é traduzida por desapego e que se não levada a sério nos tira da sintonia necessária para praticar.

Parigraha é ambição, é apego. Será que ter – nesse caso, um corpo perfeito – é ser? Para o praticante apegado se o corpo não for perfeito ele não consegue ser feliz e apenas experimenta a felicidade em momentos da valorização do corpo, mas essa experiência se perde, pois é momentânea e passageira.
Vyāsa, comentarista do Yoga Sūtra, em comentário ao aforismo II:38 diz que aparigraha significa “desistir de cobiçar, considerando que a cobiça e o acúmulo causam problemas, que as coisas estão sujeitas à decadência e que a associação com elas causa desconfiança e rancor”.

A Enciclopédia de Yoga de Georg Feuerstein indica que a palavra corpo, em sânscrito, se diz sharīra, que vem do radical shri, “desintegrar-se”, ou seja, “aquilo que decai”. Então por que o apego a algo que irá inevitavelmente desintegrar-se? Vaidade?

Sim, apego ao corpo aponta vaidade excessiva, outro fator que impede o praticante de caminhar em busca da liberdade. Mas, igualmente, há o medo da morte, e a identificação com o corpomente, que faz com que pensemos que, na hora da morte do corpo, o Ser que somos também deixa de existir. Isso é chamado avidyā, ignorância existencial.

Amanitvam é ausência de vaidade, um valor, uma qualidade da mente que é importante estar presente para o conhecimento do Ser, lembrando que é um valor a ser reconhecido e não forçado. Segundo Swāmi Dayānanda no livro O Valor dos Valores, “Amanitvam vem da palavra Sânscrita manah, que significa auto-respeito, auto-estima, estendendo-se a vaidade e arrogância”.

Logo, se existe apego confirmamos então que é decorrente a vaidade exagerada. Swāmijī complementa, “não quer dizer que a pessoa seja sem qualificações, mas quaisquer qualificações que a pessoa tenha aparecem amplificadas com exagero em sua mente como merecedores de respeito e valorização dos outros”.

Quando esse indivíduo não é elogiado ou reconhecido acaba sofrendo e esse sofrimento o distancia de sua verdadeira natureza, o que muitas vezes o deixa ainda mais apegado e obsessivo em relação aos resultados de sua prática, este passa então a praticar mais, no sentido de fazer mais āsanas, e assim forma-se um ciclo vicioso, um condicionamento que muitas vezes pode levar a uma lesão.

O indivíduo que cultua o corpo, julga a si mesmo de forma errada e com base em um estado momentâneo da mente. Swāmi Dayānanda diz no livro Liberdade: “o estado vigente da mente pode ser de tristeza, depressão, frustração, arrependimento, desapontamento ou simplesmente reação a um fracasso. Na medida em que você se julga a partir de um estado da mente, você é um samsārī (o que está enredado no mundo relativo de começos e términos)”.

Assim caminhando contra a libertação, indo em outra direção que não seja a do Yoga. A mente que está preparada para o autoconhecimento deve estar relaxada, deve haver esse valor básico que é amanitvam, o Yoga não é para o corpo, o nível de flexibilidade ou força não indica que você é um praticante avançado.

Swāmijī afirma ainda: “quando você se recusa a se julgar pelo estado da sua mente, você é um mumukṣu (o que busca a liberdade de toda aparente limitação)” Quando há compreensão, desapego e valores reconhecidos você para de se julgar, de se identificar com o corpo e então você está livre!

Namaste

Patrícia de Abreu 

Published by Patricia de Abreu

Patrícia de Abreu é professora de Yoga há 15 anos, e é inteiramente devota ao estudo e a prática dessa tradição milenar. É filiada ao Yoga Alliance E-RYT, ao Yoga Austrália país onde viveu os últimos 6 anos trabalhando com Yoga e à Aliança do Yoga no Brasil. Atualmente ensina Yoga On-line e produz conteúdo digital para o aplicativo de Meditações Insight Timer. Paty como é conhecida ensina Haṭha Yoga tradicional, Aṣṭāṅga e algumas vertentes mais modernas como Power e Yin. Estudante de Vedānta, já esteve na Índia algumas vezes para aprofundar seus estudos em retiro no Swami Dayananda Ashram. Patrícia busca ensinar de forma integral todos as pessoas interessadas no caminho do Yoga e do autoconhecimento.

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